Meu Nome é Farah: o que a série ensina sobre amor, cura e maternidade
Uma reflexão sobre maternidade, amor, dependência emocional e patriarcado a partir da série Meu Nome é Farah e das feridas que carregamos.
MATERNIDADEAMOR-PRÓPRIOAUTOCONHECIMENTO
Elaine Santos
9/23/20268 min read


O que a série Meu Nome é Farah ensina sobre maternidade, amor e cura
Ontem terminei de assistir à série Meu Nome é Farah na Netflix.
E o mais interessante foi assistir a uma série com dois olhares ao mesmo tempo: o de telespectadora e o de terapeuta.
E, gente… a gente entra em uma incongruência o tempo inteiro.
Como telespectadora, você se envolve, torce, se emociona, sente raiva, quer que determinadas coisas aconteçam.
Mas, quando você olha para aquela mesma história através de um olhar terapêutico, começa a enxergar outras coisas. Feridas, padrões, crenças, dependências e formas de amar que, muitas vezes, parecem bonitas na tela, mas que podem esconder dores profundas.
A série fez muito sucesso no Brasil e permaneceu entre as mais assistidas da Netflix por semanas. E fiquei pensando justamente nisso: o que existe nessa história que toca tanto as mulheres?
Separei três reflexões que ficaram comigo.
E já adianto: para mim, a última é a mais forte.
1. O amor de mãe
A luta pela saúde do filho na primeira temporada foi uma das coisas com as quais mais me identifiquei desde o primeiro episódio.
Farah faz de tudo pela melhora do filho. Até se envolve com a máfia para garantir o melhor tratamento para ele.
Pela visão da telespectadora, é uma história comovente.
Você quer torcer por ela. Você vê a força da mãe leoa. E isso se torna lindo.
Mas, pela visão da terapeuta, você começa a enxergar uma mulher que foi se anulando.
Uma mulher que já não veste as roupas que costumava vestir.
Uma mulher que se esqueceu.
Uma mulher que vive apenas pela vida do filho.
Que vive apenas pelo filho.
Uma mulher que não se sente merecedora de amor e que carrega uma culpa enorme pela condição de saúde da criança.
E quantas mães não estão vivendo uma situação parecida hoje?
Mulheres mergulhadas completamente na maternidade, que se esqueceram de ser mulher, de ser profissional, de ter sonhos, desejos, amigos, momentos de prazer e uma vida que também seja delas.
Eu mesma vivi isso por alguns meses com meu pequeno.
E, às vezes, por algum momento, isso se torna necessário. Existem fases em que o filho realmente precisa mais de nós.
Mas não pode ser pela vida inteira.
Porque, no futuro, essa mãe pode acabar colocando sobre o filho um peso enorme: o peso de sentir que ela fez tudo por ele.
E esse filho pode se sentir culpado por uma escolha que não foi dele.
Ele não pediu que a mãe abandonasse a própria vida.
Ele não pediu que ela deixasse de existir como mulher.
Ele não pediu que ela vivesse apenas a vida dele.
Essa foi uma escolha dela.
A mensagem que fica aqui é: sim, é lindo ver uma mãe lutar pela vida e pela saúde de um filho.
Mas essa mãe também precisa se lembrar de uma regra muito simples que aprendemos no avião: primeiro, coloque a máscara em você. Depois, ajude quem está ao seu lado.
Porque, se essa mãe se esquecer completamente dela, se ela não se priorizar nem por dez minutos por dia para fazer algo que ama, algo que a faça feliz, ela vai se deteriorando por dentro.
E uma mãe que está vivendo uma situação como a de Farah precisa de apoio.
Precisa de uma rede.
Precisa de um espaço seguro para falar sobre suas emoções, seus medos, sua culpa e tudo aquilo que talvez não consiga dizer para ninguém.
As terapias e as ferramentas terapêuticas podem ser caminhos de apoio nesse processo.
Porque ainda existe uma mulher dentro daquela mãe.
E ela também precisa ser cuidada.
2. O amor bandido
Como telespectadora, a gente acha incrível o amor entre Tarih e Farah.
A gente torce para eles ficarem juntos.
Acha lindo quando ele luta por ela.
Mas, quando olhamos para essa relação com um olhar terapêutico, precisamos observar alguns pontos.
Primeiro, Farah.
Quantas de nós, em algum momento da vida, não vivemos relações em que confundimos medo, dependência, intensidade e amor?
A expressão "síndrome de Estocolmo" é muito conhecida para descrever situações em que uma pessoa submetida a sequestro ou abuso desenvolve um vínculo emocional com o agressor. Mas o fenômeno é complexo e na minha visão ajuda a explicar o relacionamento tóxico entre os dois.
E é justamente essa consciência que quero trazer para você.
Às vezes, não precisamos estar em uma situação extrema para desenvolver uma relação de dependência emocional.
Pode ser aquele homem com quem você criou um relacionamento tóxico.
Aquele que quer competir com você o tempo inteiro.
Que te diminui.
Que te humilha.
Que faz você duvidar de si mesma.
Que alterna momentos muito ruins com momentos muito bons e, justamente por isso, mantém você presa à esperança de que o relacionamento volte a ser como nos momentos bons.
Isso pode criar um ciclo emocional muito difícil de romper.
Não estou aqui para tirar o brilho da série.
Estou aqui para trazer consciência.
Pessoas podem mudar?
Sim.
Mas uma pessoa só muda quando reconhece a necessidade de mudar e assume responsabilidade pelo próprio processo.
Você não consegue mudar alguém por ela.
A pessoa só muda somente por ela, e não por você!
E, quando você se perceber presa em uma relação que te machuca, colocar limites e buscar ajuda pode ser um passo importante.
Outro ponto que aparece no amor de Farah por Tarih é a busca por um salvador.
E talvez esteja aí uma das razões pelas quais tantas mulheres se prendem emocionalmente a histórias como essa.
Tarih aparece para salvar Farah em diversos momentos.
Eles vivem constantemente aquela relação de adrenalina, de momentos muito ruins e momentos muito bons.
E, se você se identifica com isso, talvez também faça sentido ler meu artigo "Ninguém vai te salvar — e isso pode ser libertador" - clique aqui.
Muitas de nós ainda esperamos pelo príncipe encantado que vai nos salvar de nós mesmas, da nossa vida, dos nossos traumas.
Aquele homem que vai chegar no cavalo branco e nos tirar do buraco em que acreditamos estar.
O homem que vai lutar por nós em todos os momentos.
Mas talvez a verdadeira transformação comece quando percebemos que não precisamos de alguém para nos salvar.
Precisamos aprender a nos escolher.
E existe também o amor obsessivo
Agora vamos falar do amor de Tarih.
Aquele amor que continua mesmo quando a outra pessoa diz que não quer.
Mesmo quando ela estabelece limites.
Mesmo quando existe rejeição.
Na série, Tarih apresenta comportamentos obsessivos e, em determinados momentos, ameaça tirar a própria vida.
Como telespectador, você pode interpretar aquilo como uma grande prova de amor.
Mas, olhando terapeuticamente, conseguimos enxergar outra coisa: uma pessoa que coloca no outro a responsabilidade pela própria existência, pela própria felicidade e até pela própria identidade.
É possível perceber também questões relacionadas à autoestima, dependência emocional, crenças e traumas construídos ao longo da história do personagem.
Em vários momentos, Tarih coloca Farah no lugar de salvadora.
E isso se torna um peso enorme para ela.
Porque é justamente nessa armadilha que, muitas vezes, deixamos de ser companheiras e passamos a ser mães dos nossos companheiros.
E relacionamento não deveria funcionar assim.
Você não precisa salvar o homem que ama.
E ele também não precisa ser responsável por salvar você.
Cada um precisa assumir a responsabilidade pela própria história.
3. O patriarcado
Gente, aqui está uma das partes que mais me revoltou.
A forma como a série apresenta estruturas patriarcais em determinados contextos do Oriente Médio, incluindo a ideia do homem como superior ou como dono da mulher, é muito dolorosa de assistir.
E existe uma parte especialmente cruel para mim:
quando dizem que a doença do filho de Farah seria um castigo de Deus pelos pecados dela.
Gente…
Acredito que muitas mães consigam entender a violência emocional de ouvir algo assim.
E eu consigo entender isso de uma forma muito profunda.
Eu mesma ouvi, no Brasil, alguns meses atrás, que a doença do meu filho seria porque Deus não queria que eu fizesse a medicina do cacau e que eu fosse terapeuta.
Vocês têm noção da gravidade de uma mãe ouvir isso enquanto seu filho está intubado?
Vocês têm noção da culpa que uma frase dessas pode colocar dentro de uma mãe?
Uma mãe já está com medo.
Já está sofrendo.
Já está tentando sobreviver emocionalmente.
E ainda colocam sobre ela a ideia de que a doença do próprio filho seria consequência dos seus pecados ou das suas escolhas.
Isso é cruel.
E é justamente aqui que precisamos questionar as crenças que recebemos.
Ao longo da história, estruturas religiosas e sociais também foram usadas para controlar mulheres, seus corpos, sua sexualidade, sua autonomia e seus conhecimentos.
Mulheres que cuidavam, curavam e conheciam ervas e práticas tradicionais foram, em diferentes contextos históricos, perseguidas e acusadas de bruxaria.
E, às vezes, eu penso:
a sociedade não precisa mais nos colocar literalmente em uma fogueira para queimar uma mulher.
Algumas palavras conseguem fazer isso por dentro.
Por isso, quero te convidar a ler também meu artigo "E se Deus não estivesse nos julgando?", - clique aqui.
Porque talvez seja necessário separar Deus das crenças que foram construídas sobre Deus.
Eu acredito em um Deus de amor.
Um Deus que não precisa da culpa de uma mãe para existir.
Um Deus que não transforma a doença de um filho em castigo pela vida da mãe.
E preciso deixar isso muito claro:
uma criança não fica doente porque a mãe fez ou deixou de fazer determinada coisa.
Doença não é punição moral.
E nenhuma mãe deve carregar a culpa por algo que não está sob seu controle.
Nossas crenças influenciam a maneira como interpretamos a vida, nossas emoções e nossas escolhas. Por isso, vale a pena observar de onde vieram algumas das crenças que carregamos.
São realmente nossas?
Ou foram colocadas dentro de nós por alguém?
Comece a observar.
Quando surgir aquela voz dizendo:
"Você não merece."
"Você fez algo errado."
"Isso aconteceu porque você é uma pessoa ruim."
"Deus está te castigando."
Pare.
Respire.
E pergunte:
Essa crença é minha ou eu aprendi isso com alguém?
Talvez parte da nossa cura esteja justamente em devolver algumas crenças para quem nos ensinou a carregá-las.
Proteja sua energia.
Cuide da sua espiritualidade.
Mas, acima de tudo, escolha uma relação com Deus que tenha espaço para o amor, para o acolhimento, para o livre-arbítrio e para a compaixão.
Porque talvez a maior cura seja descobrir que Deus não precisa que você tenha medo para que você seja uma boa mulher.
E que você não precisa deixar de ser mulher para ser uma boa mãe.
Nem precisa ser salvadora de ninguém para ser digna de amor.
Este texto contém spoiler
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Perguntas frequentes sobre este tema
O que a série Meu Nome é Farah pode ensinar sobre maternidade?
A história permite refletir sobre até onde vai o cuidado materno e quando, na tentativa de proteger o filho, a mãe pode acabar se anulando. Cuidar de um filho não significa deixar de cuidar de si mesma.
Como identificar quando o amor está se transformando em dependência emocional?
Alguns sinais podem incluir dificuldade de respeitar limites, medo intenso de perder a pessoa, necessidade constante de aprovação, sensação de que você precisa salvar o outro ou de que sua felicidade depende exclusivamente daquela relação. Reconhecer esses padrões é um primeiro passo para buscar ajuda e reconstruir limites.
Mulher em Cura
Por Elaine Santos
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